CAPA DO LIVRO BOB DYLAN É OUTROS EM 3 D.

BOB DYLAN É OUTROS 

Apresentação

 

“Ver e ouvir Bob Dylan é como falar sobre as Pirâmides.

O que você faz? Dá um passo atrás e... Fica embasbacado.”

(Bono Vox)

 

         Quando comecei a escrever este livro não tinha ideia do título, eu buscava algo que pudesse ser diferente, chamar a atenção do leitor para a essência do meu trabalho.  Não queria escrever uma biografia, nada a respeito da vida particular dele, falar de casas, carros, imóveis, namorada, esposas, amantes coisas além música. Como o próprio Dylan constatou existem “zilhões” de livros assim.

         O objetivo é falar do artista Bob Dylan e da força de sua obra. É claro que dentro do contexto de seu trabalho será inevitável citar fatos de sua vida pessoal, mas o foco é que a informação seja relevante em seu trabalho, que o contexto sirva para que se possa entender a importância de sua obra. Sua importância no mundo da arte. Quero mostrar a grande influência de Bob Dylan na música e cultura brasileira. Falar dos compositores que desde as primeiras horas incluíram Dylan em seu radar. E não foram poucos, foram muitos e muitos em todos os ritmos e formas de canção. Artistas de diversas gerações e estilos que seguiram a trilha aberta por ele. A música de Dylan está presente na obra de cada um deles. O grande desafio, além de escrever, foi dar um título para o livro. Eu buscava um nome que sintetizasse o que Bob Dylan representa para a arte no sentido mais amplo. Muitos livros sobre Bob Dylan possuem ótimos títulos e não queria copiar nenhum deles. Ou adaptar o nome de uma canção ou disco dele. Eu queria algo diferente e definitivo.

         Quando já havia me decidido por um título, “A Balada Brasileira de Bob Dylan”, quase que guiado pelos ventos do Espírito Santo, encontrei um artigo do Professor Carlos Inácio Coelho Neto, Mestre em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Professor da Universidade Católica do Salvador (UCSAL). O título do artigo me chamou atenção; “Dylan é um outro”. Nele o professor Carlos Inácio escreveu que “Em carta enviada a Georges Izambard, em setembro de 1870, (o poeta) Rimbaud escreveu uma frase curta, direta, que aparentemente está perdida no texto escrito ao seu ex-professor. Trata-se da frase “Eu é um outro”. A frase remete ao espelhamento da própria identidade, uma outra identidade, personalidade ou ego”.

         Pronto, estava ali a ideia para o título do meu livro que eu tanto procurava, o poeta Rimbaud com essa frase “Eu é outro”, indica a necessidade do artista de possuir uma múltipla personalidade, de ser ele mesmo e outros ao mesmo tempo. A personalidade deve estar além de seu ego. É preciso ser múltiplo e ninguém é tão múltiplo como Bob Dylan. Era o título ideal para esse livro. “Bob Dylan é Outros”.

Para confirmar que a escolha veio soprada pelo vento do Espírito Santo, enquanto estava me decidindo, percebi que não por acaso, Bob Dylan em seu mais recente trabalho, na canção “I Contain Multitudes” se refere a essa multiplicidade nos versos “Eu contenho multidões, sou um homem de contradições, sou um homem de muitos humores”. Os versos foram inspirados na obra de outro grande poeta americano; Walt Whitman, que escreveu; ”Eu sou imenso, contenho multidões”. Para Rimbaud, Walt Whitman e Bob Dylan o indivíduo contempla em si multidões e por sua vez multidões se condensam no indivíduo que é múltiplo em sua arte. Nada mais Bob Dylan do que tudo isso.

         Robert Allen Zimmermann escolheu ser "Outros" e para isso criou o personagem Bob Dylan como que para se mostrar pequeno reduziu seu nome Robert, para Bob. Depois manteve inteiro o sobrenome que remete ao poeta Galês; Dylan Thomas. No entanto Dylan não reconhece esse fato, ele fala de um tio chamado Dillon, assim como cita o cowboy da televisão o herói Matt Dillon, da série Gunsmoke. Claro que para inventar Bob Dylan lançou mão de invenções, portanto é impossível saber a verdade de seu sobrenome. Mas podemos deduzir que as transformações de seu nome giraram em torno de um diminuitivo e um superlativo no sobrenome. Não por acaso Dylan Thomas, influenciou fortemente, escritores e poetas que Dylan admirava, como os que participavam do movimento Beatnik; Jack Kerouac, Michael McLure, Allen Ginsberg, que estavam à frente do movimento da contracultura americana nos anos 1960.  

         Adotar nome artístico, pseudônimos, sempre foi uma saída para aqueles que querem proteger sua identidade pessoal, da identidade artística; muitos utilizam esse artifício para assinar seu trabalho. No caso de Bob Dylan essa mudança de nome vai além do ‘pseudônimo’, não se trata apenas de esconder sua identidade e sim de ampliar o conceito de identidade, de individuo, de artista. Os brasileiros têm acesso a essa multiplicidade de “Eus” no mundo das artes. O poeta português, Fernando Pessoa, um nome importantíssimo na cultura Luso-Brasileira adotou um “Outro Eu”, na verdade, diversos “Outros Eus”. Fernando Pessoa possuía heterônimos que, são diversos pseudônimos que constituem outra personalidade. O grande poeta assinava suas obras com os heterônimos de; Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Ele dizia “Sinto-me múltiplo (...) uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço”. O inventado Bob Dylan, se não adotou heterônimo, sempre foi ‘outros’ em sua própria personalidade; “As pessoas nas minhas canções são todas ‘eu’”. Ele vive na estrada, vive dentro de si mesmo nas múltiplas identidades que possui. “Há tantas facetas em Bob Dylan que ele é esférico” disse Bernard Paturel, motorista e segurança conforme citado por Robert Shelton em seu livro, “No Direction Home”.

Portanto depois de tanta multiplicidade, tantas referencias o título se impôs:  “Bob Dylan é outros”.

Ed Paes

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