• Ed Paes

DIAMANTES E FERRUGEM "O Amor de Bob Dylan e Joan Baez"

Atualizado: 25 de jun.



Em 1961, Bob Dylan conheceu Joan Baez e eles viveram um grande romance na bela Greenwich Village de Nova York. A voz dela impressionou Dylan: “Ela tinha aquela voz de soprano de parar o coração e eu não conseguia tirar isso da minha mente”. Joan Baez estava no auge de sua carreira, era a rainha do folk e brilhava nos palcos embalando a juventude americana e os ativistas do início dos anos 1960. Bob Dylan surgia no cenário, com sua voz ‘diferente, lançando um álbum folk de pouca ou nenhuma repercussão. Ele reconhece a importância de Joan Baez na época: “Ela era a rainha da música folk, gostou das minhas músicas e me levou para fazer shows para multidões de pessoas encantadas com sua beleza e voz”. Convidado por Baez, o jovem Dylan aceitou participar do Festival de Newport, um dos maiores e mais importantes da época. A apresentação que fizeram em dupla nos palcos, dividindo um único microfone causou frisson no público. Em pouco tempo Dylan passou a escrever canções que redefiniram a música folk e a união do melhor compositor com a melhor cantora, logo se transformou num romance que tomou as páginas das revistas e jornais da época. Joan Baez disse: “Quando Dylan e sua música entraram na minha vida, talvez eu não soubesse que estava procurando, eu pensei, 'Oh meu Deus' este é o elo entre mim e o mundo, a música e a política e tudo isso “e acrescentou “Ouvi sua música e logo ficou claro que era a direção a seguir, eu era louca por ele. Nós éramos únicos e estávamos nos divertindo muito”, Dylan também estava se divertindo e disse; “Sempre gostei de cantar e tocar com ela, achei que nossas vozes se misturavam muito bem. Nós poderíamos cantar qualquer coisa e faria sentido, para mim sempre soou bem e para ela também”. O grande momento da participação deles foi na marcha pelos direitos civis, de Martin Luther King em Washington. Ficou para o grande público a imagem da cantora famosa que trouxe para a cena musical o jovem compositor.

O romance entre os dois, durou apenas dois anos, Dylan deixou para trás a música folk e a sua rainha. Ele mudou de direção, descontente com os caminhos que tomavam as canções de protesto e as manifestações de rua. Ele chocou os puristas do folk com uma apresentação elétrica no Festival de Newport e se transformou numa estrela do rock. Joan Baez não o seguiu, continuou a representar a música folk. O momento que desatou o fim do romance mais comentado do mundo da música, foi a turnê de Dylan à Inglaterra, ma qual Baez sonhava estar com Dylan no palco. Mas havia lugar para ela na música de Dylan. Era um momento de ruptura, um péssimo momento para o romance, uma vez que Dylan não queria dividir o palco com a representante máxima do folk, enquanto se transformava em elétrico. Essa era a nova realidade; Dylan era o futuro e Baez representava o passado. O clássico documentário de DA Pennebaker, “Don't Look Back” mostra esse momento de transformação. Joan Baez decepcionada abandonou a turnê e Bob Dylan sempre reservado, diz a respeito da época; “Eu estava apenas tentando lidar com a loucura que se tornou minha carreira”. Para o público das revistas, Dylan deixou para trás a mulher que o ajudou a subir na carreira.

A verdade é que Dylan queria distância do maniqueísmo político, queria ser livre, adotou o rock, criou o folk rock para chegar mais perto do público jovem que amavam os Beatles e os Rolling Stones, enquanto Joan Baez, ao contrário, confessou que as coisas deram errado; “Eu queria preservá-lo em uma caixinha” e ele não aceitou por isso tudo acabou. Com o fim do romance Dylan se casou com a modelo Sara Lowndes, enquanto Joan Baez, que permanecia fiel a seus ideais, casou-se com um ativista político; David Harris. Pouco tempo depois ele acabou sendo preso por se negar a servir ao exército durante a guerra do Vietnam. Ambos estavam casados, mas a história continuava, uma vez que nada estava resolvido.

Muitas canções foram escritas e ditas como recado de um para o outro. Da parte de Dylan a mais direta delas é "Spanish in the loving tongue" (O espanhol é a língua do amor) que diz: “Parti meu coração, perdi minha alma/Adeus, meu coração/Espanhol é a língua do amor/Suave como música, claro como a primavera/Foi com uma garota que aprendi”. Outras canções que podem ser atribuídas a ela são; “Ain’t me Babe”, “Farewell Angelina”, “Just Like a Woman”, “Love Is Just a Four-Letter Word” e “Visions of Johanna”, mas se tratando de Dylan é sempre difícil saber se é ele quem está falando ou se trata de um personagem inventado por ele. Assim como determinar de 'quem' ele está falando.

Joan Baez, ao contrário, sempre foi mais direta e em 1973, já separada de seu marido ativista, escreveu a canção “To Bobby”; Onde mandava um recado direto para aquele que foi considerado "A voz de sua geração"; “Eu vou colocar flores aos seus pés/E eu vou cantar para você de forma tão doce/E espero que leve minhas palavras para casa, em seu coração/Você nos deixou marchando na estrada/E disse quão pesada era a carga/Mas vivíamos os tempos jovens/A luta mal teve seu começo/Você ouve as vozes na noite, Bobby?/Elas estão chorando por você/Veja as crianças na luz da manhã, Bobby/Elas estão morrendo (...) Como essas flores na sua porta/E anotações rabiscadas sobre a guerra/Nós estamos apenas dizendo que o tempo é curto/E há trabalho a fazer/E ainda estamos marchando nas ruas/Com pequenas vitórias e grandes derrotas/Mas há alegria e há esperança/E há um lugar para você/E você ouviu as vozes na noite, Bobby/Elas estão chorando por você/Veja as crianças na luz da manhã, Bobby/Elas estão morrendo”. Um duro chamamento ao Dylan dos primeiros anos, o Dylan das canções de protesto. Ela cobrava o abandono dele às causas sociais. Dylan falou a respeito da canção; "Joan Baez gravou uma música de protesto sobre mim que estava ganhando força, me desafiando a seguir em frente - assumir o comando, liderar as massas - ser um defensor, liderar a cruzada. A música me chamou, como um anúncio de serviço público no rádio”. Tudo aquilo que Dylan evitou ser, quando saiu da cena Folk.

A canção de amor definitiva para esse romance foi escrita por Joan Baez “Diamond and Rusts”(Diamantes e Ferrugem), um título que remete ao fato de que o tempo transforma carvão em diamante e metais em simples ferrugem, assim como o romance dos dois. A canção é demolidora, a letra de Baez fala de uma ligação de seu ex amante, trazendo para ela, velhos fantasmas; “E eu aqui me vejo sentada/Telefone na mão/Escutando uma voz que me cativou/Um par de anos luz atrás/E me jogou direto no abismo”. Em seguida o personagem é revelado; “Se bem me lembro, seus olhos/Eram mais azuis do que ovos de tordo”. Os olhos azuis de Bob Dylan são inconfundíveis e sua sinceridade típica; “Você disse que minha poesia era ruim” e Baez pergunta ao Dylan sempre em movimento; “De onde você está ligando?”. Sim ele sumiu na estrada enquanto ela continuava a seguir o velho caminho e mantinha suas lembranças; “Você explodiu na cena/Uma lenda viva/O fenômeno bruto/O vagabundo original/Você se perdeu em meus braços”. Ela pede que ele se defina e assinala mais uma vez o talento de Dylan. “Agora você vem me dizer/ Que não sente saudades// Então me dê outra palavra para isso/Você que é tão bom com palavras”. E finaliza a canção com versos demolidores de dor e desencanto: “Sim, eu te amei demais/E se você está me oferecendo diamantes e ferrugem.../Já paguei por tudo". E tempos depois acrescentou os versos “Os meus diamantes eram mais puros que os seus”. Em 1976, como um gesto de reaproximação, Dylan convidou Baez para fazer parte de sua turnê, "Rolling Thunder Revue" e dessa vez ela dividiu o palco com ele, em dueto em diversas músicas. Nas imagens da turnê, quando dividem um único microfone, eles quase se beijam entre os versos das canções, deixando o público extasiado com o jogo de sedução no palco.

Quando lançou seu álbum “Desire”, na canção “Oh Sister” (Oh Irmã), numa letra poética e não direta, que muitos apontam para a direção de uma música de devoção a Deus, uma vez que a palavra “Father/Pai” está grafada com letra maiúscula. A canção fala de uma pessoa fria que se mostra fria. E no final estão; “misteriosamente salvos”, remetendo a religiosidade. Parte da letra diz: “Oh, irmã, eu não sou um irmão pra você? /E um merecedor de afeto? /E nossa finalidade não é a mesma nesta terra/Amar e seguir o caminho? E termina com os versos: “Oh, irmã, quando eu vier bater à sua porta/Não se afaste, você me causará tristeza/O tempo é um oceano, mas termina na praia e você pode não me ver amanhã”. A canção foi recebida como que dedicada a Baez e uma das razões para isso é o fato de numa apresentação ao vivo, com a presença dela na plateia, Dylan dizer antes de cantar; “Eu quero dedicar essa canção a alguém assistindo hoje à noite, e eu sei, ela sabe quem ela é”.

Para Joan Baez, não havia dúvida, conhecendo Dylan, ela entendeu que a mensagem era dirigida a ela, e não demorou a responder, compondo a canção; “Oh Brother” (Oh, Irmão), na qual não mede as palavras; “Você tem olhos como Jesus/Mas tem a língua de uma víbora/ Estávamos sentados ao redor da Terra/De onde diabos você veio?/Com sua dama vestida de pele de camurça/Mostrando uma bela forma/Quando você vai perceber/Que você simplesmente não pode viver sem ela? Em seguida pergunta a Dylan na letra: “E eu te conheço há muito tempo/E você poderia gentilmente me dizer, senhor/Como em nome do Pai e do Filho/Vim para ser sua irmã? Eles se amaram de verdade, por isso ela não entendia o sentido de ser apenas uma irmã e reage com versos duros: “Você fez sujeira para amigos de longa data/com pouca ou nenhumas desculpas/Quem te deu essa autoridade/Para distribuir tais abusos? (...) Eu reagi como um trovão”. E segue com versos ainda mais diretos: “Meu amor por você se estende por toda a vida/E eu não quero desperdiçá-lo/Mas querido, o que você está servindo /Você nunca gostaria de provar”. E finaliza num tom de guerra e paz; “Se eu tivesse a coragem/ Para arriscar ou quebrar/eu ia colocar nossa amizade em risco/para mostrar-lhe como resolver isso”

Joan Baez não resolveu e em 1984, Dylan a convidou para participar da sua turnê na Europa, no entanto, ela descobriu que apesar de seu contrato dizer que receberia valores iguais ao dele e que dividiria o palco com ele, não foi isso que aconteceu. Novamente ela voltou para casa desiludida, como na Inglaterra, em 1966. No entanto, apesar desses desencontros seu amor por Dylan continua soprando no vento.

Diferente de Baez, que sempre demonstrou não ter superado o fim do romance, Dylan nunca colocou as coisas no ‘pessoal’, ele é poético, evasivo, enquanto ela é direta, objetiva; “Ele (Dylan) não é normal”. Normal ou não, demorou quase cinquenta anos, para Dylan fazer um incomum pedido de desculpas; “Joan Baez é tão obstinada quanto possível. Um espírito verdadeiramente independente, ninguém pode lhe dizer o que fazer se ela não quiser. Aprendi muitas coisas com ela. Por seu tipo de amor e devoção, eu nunca poderia retribuir isso. Eu me sinto muito mal com isso, lamento por nosso relacionamento ter terminado”.

A verdade é que a vida mostrou, que os diamantes do tempo que eles se amaram, cantaram e trabalharam juntos ainda brilham na imaginação do público. Um amor que se perdeu entre as convicções políticas da cantora engajada e do poeta que sempre buscou a liberdade e novos caminhos. Baez ficou para trás e encontrou a ferrugem que corrói aqueles que param no tempo. Dylan ao contrário foi a pedra que rolou em frente, para não criar limo.

Mas quem sabe não virão novas confissões, novas canções, afinal como disse Baez: “Ambos sabemos o que memórias podem trazer”. E podem ser mais diamantes ou mais ferrugem.


Ed Paes é escritor, autor dos livros “Bob Dylan é Outros”; https://clubedeautores.com.br/livro/bob-dylan-e-outros-2 e “Bob Dylan e a MPB”; https://clubedeautores.com.br/livro/bob-dylan-e-a-mpb,

Estes e outros livros estão à venda no Clube de Autores, Amazon e outras plataformas.

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