• Ed Paes

Lima Barreto e a Princesa Isabel

Atualizado: 21 de jun.

O "Genial Mulato" e a "Redentora" que libertou os escravos do Brasil


No dia 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que definitivamente determinou o fim da escravidão no Brasil. Esse é o fato. Foi a Princesa Isabel, "A Redentora", quem acabou com a escravidão no Brasil. Um ato de coragem que pôs um fim a um dos momentos mais tristes da história do Brasil e da humanidade. Depois de diversas leis paliativas, como a "Lei do ventre livre", "Lei dos Sexagenários" e outras que visavam diminuir o drama da escravidão, e que eram facilmente ignoradas pelos escravocratas. a "Lei Aurea" acabou definitivamente com a escravidão oficial. O Brasil, por força de uma econômia agricola, foi o último pais do mundo a libertar seus escravos.

Um dos maiores escritores brasileiros, o mulato Lima Barreto, tinha apenas sete anos de idade, mas foi testemunha ocular dos festejos em frente ao Paço Imperial, sede do governo do Brasil para assistir os festejos da assinatura da importante Lei. Lima Barreto recorda; “Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz se misturam recordações da minha meninice. Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço. Na minha lembrança desses acontecimentos, o edifício do antigo paço, hoje repartição dos Telégrafos, fica muito alto, um sky-scraper; e lá de uma das janelas eu vejo um homem que acena para o povo. Não me recordo bem se ele falou e não sou capaz de afirmar se era mes­mo o grande Patrocínio”. (O grande Abolicionista, negro, José do Patrocínio, jornalista, escritor, orador que que se destacou como uma das figuras mais importantes dos movimentos Abolicionista e Monarquista no país); Lima Barreto continua seu relato; “Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles mi­lhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas… fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e harmonia."

O escritor narra ainda que esteve presente a missa campal em celebração a abolição da escravatura no Campo de São Cristóvão. “Eu fui também com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao assisti-la, me vinha aos olhos a “Primeira Missa”, de Vítor Meireles. Era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez… houve desfile de batalhões escolares e eu me lembro que vi a princesa imperial, na porta da atual Prefeitura, cercada de filhos (...) ela me parecia loura, muito loura, maternal, com um olhar doce e apie­dado. Dos jornais e folhetos distribuídos por aquela ocasião, eu me lembro de... um soneto dedicado à princesa. Eu me lembro, foi a minha primeira emoção poética a leitura dele. Intitulava-se “Princesa e Mãe” e ainda tenho de memória um dos versos: Houve um tempo, senhora, há muito já passado… São boas essas recordações; elas têm um perfume de saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo.”

Lima Barreto guardou o respeito pelo gesto da Princesa Isabel, ele reconhece a grande coragem dessa mulher, que mesmo ameaçada de que, caso a assinasse a Lei Aurea, estaria também, assinando a sentença de morte do regime Monarquista. Mas ela, mostrando sua grandeza humana declarou; "Se mil outros tronos eu tivesse, mil tronos eu perderia para pôr fim à escravidão!" E foi o que aconteceu. A Princesa Isabel assinou a Lei em 1988 e no ano seguinte, 1899, a Monarquia foi derrubada. Uma vingança dos escravocratas que nunca aceitaram a Abolição e exigiam indenização por parte do governo. Lima Barreto sempre a reverenciou e respeitou a Princesa Isabel como a grande redentora, a mulher que enfrentou o nefasto regime da escravidão.

A Princesa Isabel, a segunda mulher a assumir o governo no Brasil, fez o que muitos consideravam impossível e pagou um alto preço, seu gesto serve de lição para os governantes atuais> Mesmo sob ameaça de destituição, consciente dos riscos de perder o poder, foi em frente e fez o que era certo, o que era justo e que seu coração cristão determinava.

Parabéns a Princesa Isabel, parabéns a Lima Barreto que soube entender a importância da princesa nesse processo. Lima Barreto, sempre soube defender os verdadeiros interessas dos negros do Brasil e reconhecer que não se pode destruir a verdade histórica.

Colocar a Abolição em segundo plano é um crime contra a história, contra a memória daqueles que lutaram de verdade para quebrar as correntes da injustiça. A história se impõe.

O resto é estória...


Ed Paes, é escritor e autor do livro "Afonso" - Um sonho de Glória, a venda na Amazon.

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