• Ed Paes

Abolição da Escravatura, Lima Barreto e a Princesa Isabel

Escritor viveu os momentos do 13 de maio dia da libertação da escravatura



No dia 13 de Maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que definitivamente determinou o fim da escravidão no Brasil. Esse é o fato. Foi a Princesa Isabel, "A Redentora", quem acabou com a escravidão no Brasil. Um ato de coragem que pôs um fim às diversas leis paliativas como a Lei do ventre livre, dos Sexagenários e outras facilmente ignoradas pelos escravocratas. Como sempre o Brasil vivia na vanguarda do atraso e foi o ultimo pais do mundo a libertar os escravos.

Um dos maiores escritores brasileiros, o mulato Lima Barreto, viveu essa época, ele tinha sete anos de idade e seu pai, filho de escrava liberta, o levou ao Paço Imperial, sede do governo do Brasil para assistir os festejos da assinatura da importante Lei. Lima Barreto recorda “Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz se misturam recordações da minha meninice. Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço. Na minha lembrança desses acontecimentos, o edifício do antigo paço, hoje repartição dos Telégrafos, fica muito alto, um sky-scraper; e lá de uma das janelas eu vejo um homem que acena para o povo. Não me recordo bem se ele falou e não sou capaz de afirmar se era mes­mo o grande Patrocínio”. O grande Abolicionista, negro, José do Patrocínio, jornalista, escritor, orador que que destacou-se como uma das figuras mais importantes dos movimentos Abolicionista e Monarquista no país.. “Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles mi­lhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas… Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e harmonia.

O escritor narra ainda que esteve presente a missa campal em celebração a abolição da escravatura no Campo de São Cristóvão. “Eu fui também com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao assisti-la, me vinha aos olhos a “Primeira Missa”, de Vítor Meireles. Era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez… Houve desfile de batalhões escolares e eu me lembro que vi a princesa imperial, na porta da atual Prefeitura, cercada de filhos (...) Ela me parecia loura, muito loura, maternal, com um olhar doce e apie­dado. Dos jornais e folhetos distribuídos por aquela ocasião, eu me lembro de... um soneto dedicado à princesa. Eu me lembro, foi a minha primeira emoção poética a leitura dele. Intitulava-se “Princesa e Mãe” e ainda tenho de memória um dos versos: Houve um tempo, senhora, há muito já passado… São boas essas recordações; elas têm um perfume de saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo.”

Lima Barreto é uma testemunha ocular da história, e desde esse tempo de menino guardou o respeito pelo gesto da Princesa Isabel, que mesmo ameaçada de que casoa assinasse a Lei Aurea, estaria assinando a sentença de morte do regime Monarquista. Ela declarou; "Se mil outros tronos eu tivesse, mil tronos eu perderia para por fim à escravidão!" E foi o que aconteceu. Ela assinou a Lei e no ano seguinte ocorreu o golpe da República que pôs fim a Monarquia no Brasil. Uma vingança dos escravocratas que nunca aceitaram a Abolição e exigiam indenização por parte do governo. Lima Barreto sempre a reverenciou e respeitou a Princesa Isabel por ser a grande redentora, a mulher que enfrentou o nefasto regime da escravidão.

A Princesa Isabel, a segunda mulher a assumir o governo no Brasil, fez o que muitos consideravam impossível e pagou um alto preço, seu gesto serve de lição para os governantes atuais, sob ameaça de destituição, consciente dos riscos de perder o poder, foi em frente e fez o que era certo, o que era justo e que seu coração cristão determinava.


Hoje, governantes corruptos e sem escrúpulos se agarram a cargos e ao foro privilegiado, jamais fariam algo que fosse contra seus privilégios. Parabéns a Princesa Isabel, parabéns a Lima Barreto que soube entender a importância da princesa nesse processo. Lima Barreto, sempre soube defender os verdadeiros interessas da raça negra e reconhecer que não se pode destruir a verdade histórica.


Colocar a Abolição em segundo plano é um crime contra a história, contra a memória daqueles que lutaram de verdade para quebrar as correntes da injustiça. A história se impõe.


O resto é estória...


Ed Paes, é escritor e autor do livro "Afonso" - A vida de Lima Barreto.

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